domingo, abril 30, 2006

A Dança dos Espectros em redor do Peak Oil

Um artigo deveras interessante. Não tanto pelas ilações -cada qual trata das suas -, mas, sobretudo, pela compilação de dados e factos. Alguns trechos, para aperitivo:

«In the last year we have seen the collapse of Kuwait ’s super-giant field Burgan; accelerated decline in the world’s second-largest field, Mexico ’s Cantarell; and an overall global decline rate approaching 8%. We have seen Saudi Arabia fail to increase production while at the same time finding it more difficult to hide deteriorating reservoir conditions in all of its mature fields, including Ghawar. As of tonight, more than 30 of the world’s largest producing nations have entered steep decline.»
(...)
«The US government continues an unwinnable war in Iraq while building massive permanent bases and the largest embassy compound ever built. Not only does the US have no intention of leaving Iraq , it has committed—whether under Republican or Democratic leadership—to staying forever—whatever that means. The Empire’s position is clear, not as a result of what it says, but as a result of what it has done. America ’s primary plan to deal with Peak Oil is to fight or intimidate for energy supplies wherever it deems necessary. That, of course, has forced the rest of the world—with a few notable exceptions like Norway and Brazil —to dance to the same sheet music. As a result, I would estimate that of every ten units of energy (or money) expended preparing for Peak Oil today, nine are spent preparing for war while only one is spent building lifeboats and teaching people how to survive.»
(...)
«The US government is playing a bluff hand over an attack against Iran , which in spite of being both unlikely and risking a global nuclear holocaust, has resulted in massive increases in military spending all around the planet. A global arms race is now using up energy and commodities that should be used rebuilding railroads, enhancing mass transportation, and building renewable infrastructure to soften the coming blows.
In the face of this, the entire world, and especially China , Russia , India , Germany and Japan are pouring hundreds of billions of dollars of investment into Iran . This is one of many sure signs that the American Empire’s weaknesses are becoming visible. There is blood in the water and blood in the water usually leads to a fight. The world, at least as far as its pocketbook is concerned, is betting on Iran.
Russia is selling Iran lots of Tor M1 anti-aircraft missile systems and cruise missile and high-speed torpedo technologies. China also is flooding Iran with advanced military systems.»
(...)
« Climate Change and hurricanes not only continue apace but have accelerated. Now that we are just weeks away from a new hurricane season, fully 23% of Gulf of Mexico production remains shut-in after last year’s hurricanes.»
Avizinham-se tempos sombrios?...
No caso do Irão, por exemplo, não me parece que o mais preocupante seja o putativo bluff que os Estados Unidos estarão ou não a fazer. O pior é se os outros estão determinados a pagar para ver.

O Folhetim da Bolsa

«Tehran, April 26, IRNA -Iranian Oil Minister Kazem Vaziri Hamaneh said on Wednesday that the establishment of Oil Stock Exchange is in its final stage and the bourse will be launched in Iran in the next week.»

Pelo sim, pelo não, o melhor é esperarmos sentados.

sábado, abril 29, 2006

Mistérios do FBI


Afinal, em que é que ficamos?...
Portugal devia exportar os dez mil especialistas de Al Qaeda e Bin Laden que infestam jornais, televisões e blogues, em regime de perpétuo chinfrim canoro. Verdadeiras trituradoras de dúvidas e fulgurantes motoniveladoras de controvérsias, estes oráculos destemidos desofuscariam em menos de nada os nabos entapumescidos do Federal Bureau, fundado em 1906 por um obscuro descendente de Napoleão Bonaparte.

sexta-feira, abril 28, 2006

Não batam mais na velhinha!...

Comunas cubanos, instigados pelo feroz e hirsuto tirano, brutalizam velhinha.
Enquanto isso, e desde há vários anos, o governo do Uganda, pilotado por um tal Museveni e subsidiado pela magnífica e very british democracia, promove e ampara mortandades e razias que já rondam os 3,5 milhões de pessoas. Mas, claro está, os africanos, além de pretos, são portadores de pencas cuja aerodinâmica não cumpre os quesitos internacionalmente consagrados como certificadores de vítima. Se é certo que proporcionam uma excelente e caudalosa ventilação, não é menos certo que auguram vidas pouco longevas aos proprietários.
Moral da história: é um escândalo, isto da velhinha!
E mais escandaloso ainda se pensarmos - aposto dobrado contra singelo - que, tal qual o seu padroeiro Guevaricossauro, os ferrabrases facínoras nem lavados e perfumados estavam quando, levados de seiscentos diabos e respectivas mães, se atiraram à desvalida anciã. Faço ideia o fedor dos sovacos e o mau hálito que, a juntar às bordoadas ogreabundas, a martirizada senhora teve de aguentar.
E vá lá que ela, coitadinha, apesar de tudo, conseguiu, com estoicismo milagroso e aferrolhoamento épico, proteger o céu da boca e as traseiras dos abanos!...

quinta-feira, abril 27, 2006

Os Otários que paguem a crise (reposição)

(Isto é só para demonstrar que os postais, aqui, neste batel danado, não só não envelhecem, como, com a idade, ficam cada vez melhores. Como o vinho do Porto, pois. Quando eu digo "melhores", entenda-se "cada vez mais actuais"...)

Estou de acordo: "Os ricos não devem pagar a crise".
Em primeiro lugar, porque os ricos são o esteio da sociedade e do mundo. Se acabássemos com os ricos, para que farol guia olhariam os pobres, bem como os remediados e os quase nababos? Ficariam às escuras, pois claro, sem saberem para onde se dirigir nem que paradigma imitar. Naufragariam irremediavelmente de encontro aos escolhos, traiçoeiros e pontiagudos, da existência.
Nenhuma sociedade funciona sem um regime, e nenhum regime se aguenta sem paradigmas orientadores. Depois de inúmeras peripécias que seria fastidioso enumerar, o mundo ocidental arfa sob os primores duma plutocracia vigorosa. Não adianta fazer grandes ginásticas mentais à procura de mundos alternativos; é assim. A História, à boa maneira hegeliana, porta-voz do "Espírito", determinou-o.
Por conseguinte, sendo uma plutocracia, tem nos ricos o vértice da pirâmide – tal qual como se fosse uma monarquia, teria no rei; ou, uma teocracia, encontraria em Deus. Ora, se retirarmos o rei à monarquia, ou o Deus à teocracia, lá ruem ambas, a monarquia e a teocracia, sem apelo nem agravo. O mesmo acontece se retirarmos os ricos à plutocracia. Resulta no caos, na anarquia, desatam-se todos a comer uns aos outros. Descamba o carrossel numa depredação intraespecífica sem regras, bestialmente destrutiva e causadora dos piores atropelos e sevícias à ordem pública e não só.
Assim, tal qual vamos, há uma ordem: os ricos comem todos os outros; os pobres são comidos por todos os outros; entre os ricos e os pobres existem uns terceiros que comem e são comidos. Se não é o melhor dos mundos, anda lá próximo. É como na selva: há um equilíbrio natural, racional, que visa a perpetuação do sistema ecológico. Têm que existir poucos ricos e muitos pobres, da mesma forma que devem existir poucos lobos para muitas ovelhas. Se existissem muitos lobos para poucas ovelhas, os lobos exterminariam as ovelhas e, depois, definhariam até à inanição por falta de alimento. A não ser, claro está, que os lobos mais fortes despromovessem os mais fracos a ovelhas e desatassem a pitar neles. Em todo o caso, isso não passaria duma solução de emergência e apenas adiaria o colapso inevitável do sistema.
Portanto, sendo os ricos o que de mais precioso tem o regime, convém preservá-los e protegê-los de todos e quaisquer percalços. Ora, um rico não é rico porque paga crises ou o que quer que seja. Pelo contrário, é rico porque lhe pagam inúmeras coisas: é rico porque recebe. Viaja isento, à borliu.
Também, ao contrário do que se pensa, o rico não é rico porque investe o que quer que seja: é rico porque acumula. Se o rico gastasse o seu precioso dinheiro –a sua essência, e substância inefável do sistema -, em negócios e fabriquetas, corria o risco de ficar pobre. Ora, esse é um risco que nenhum rico que se preze pode correr.
É claro que o pobre, e especialmente o pobre de espírito, cisma que assim é. Isso, porém, não nos deve surpreender: É conveniente ao sistema e ao rico que ele assim pense. Tratam até, ambos, de mimar-lhe essa imbecil convicção, de mantê-lo nessa ilusão mentecapta. Mas, na verdade, o rico apenas se dedica a multiplicar o seu dinheiro, velando, desse modo, pela própria saúde do regime e pelo equilíbrio do ecossistema.
Quer dizer, o rico nunca investe o "seu" dinheiro. Investe, isso sim, o dinheiro que o banco lhe confia para investir. O "seu" dinheiro significa apenas"crédito" junto da banca, funciona como uma espécie de brevet para "piloto de capitais". Porque o rico é essencialmente isso, um piloto de capitais, que se faz pagar a peso de ouro pela crematonáutica que exerce. O "seu" dinheiro é apenas aquilo que antes da operação a garante e que, terminada a mesma, resultará ampliado. A função do rico é tornar-se cada vez mais rico. O ser rico, bem mais que um estatuto, é uma dinâmica: cega, obsessiva, inexorável.
Então, com que dinheiro investe o rico? – Com o dinheiro dos outros, é evidente; precisamente aquele que a banca extrai à grande maioria.
E o que é uma "crise"? – É uma época de desequilíbrio financeiro, em que, por um lado o Estado através de impostos e taxas, e por outro a banca e seus associados, através de "empréstimos" (que mais não são que formas encapotadas de cobrar "taxas" e "impostos" muito acima dos do próprio Estado), deixaram ou ameaçam deixar a grande parte da população na penúria, senão mesmo à beira do colapso enquanto sociedade.
Se o dinheiro deixa de circular com a quantidade necessária a manter um fluxo de oxigenação saudável do sistema, isso só pode significar hemorragia algures.
Quando, em plena crise, a banca apresenta lucros fabulosos, isso significa que esse dinheiro foi sacado à população e entregue nas mãos dos tais "pilotos". O que estes fizeram, obedecendo à sua lógica intrínseca, foi ir investi-lo noutras paragens mais rentáveis. O objectivo do investimento não é criar postos de trabalho: esse é o simples meio. A finalidade é multiplicar o capital inicial. O resto é supérfluo e, em bom rigor, descartável, logo que a finalidade esteja alcançada.
Entretanto, o país de regresso à sua penúria tradicional, do ponto de vista dos ricos e seus acólitos, é positivo: quer dizer que o país, de volta ao terceiro mundo e à realidade, está a transformar-se num país mais competitivo, com mão de obra mais barata e menos esquisita. Para os pobres, os verdadeiros, também não faz grande diferença: abaixo de pobres não passam, e já estão habituados. Concentram-se no futebol, na pinga e lá vão. Os únicos que, de facto, têm motivos para se preocupar seriamente são aquela classe heteróclita e intermediária – daqueles que vivem digladiados entre a angústia de regredirem a pobres e a ilusão de, num golpe de asa, ou por qualquer súbita lotaria do destino, ascenderem a ricos. Esses, temo-o bem, vão ter que sacrificar-se, mais uma vez, pela competitividade do país. É, aliás, urgente que desçam do seu pedestal provisório e se compenetrem dos seus deveres atávicos. São para isso, de resto, que, ciclica e vaporosamente, são criados.
E dado que os pobres não pagam porque não têm com quê, e os ricos também não, por inerência de função e prerrogativa sistémica, resta-lhes a eles, os tais intermédios (ou otários, se preferirem), como lhes compete, chegarem-se à frente. Está na hora de devolverem a sua "riqueza emprestada", o seu "estatuto a prazo"; de se apearem do troleibus da ficção e retomarem o seu lugarzinho na horda chã, em fila de espera para o próximo transporte até à crise seguinte.
Não sei se campeia a justiça neste mundo. Duvido. Mas que reina uma certa ironia, disso não restam dúvidas.

quarta-feira, abril 26, 2006

Canções ao crepúsculo



Quando o Homem foi à lua
tu onde é que ficaste?
Dão-te a gaja toda nua
tiram-te a força na haste.

Quando descobriram a pólvora
tu o que é que descobriste?
Estavas a meio entre a nódoa
de sebo e o chispe?...

Quando te baixaram as calças
tu o que é que imaginaste?
Que era água das malvas
que era um prazer, deixaste...

Quando te venderam banha
tu o que é que compraste?
Para santo falta-te a senha,
para homem o guindaste.

Não me digas, não me sigas
não me culpes, não me absolvas
não me ames, não me chames
não me lixes, não me fodas!

Já estás bem na merda
mas a febre persiste,
Se morreres é uma perda
caga, logo existe.

Já te atolas em direitos
já podes apregoar disparates,
Já te mimam os eleitos
Só te faltam os tomates.

Já adoras outra vaca
já culminas outro cano,
Já consagras outra data
já conspurcas outro ano.

Já quase chegas a Marte
já só pedes a Lua,
A costura é uma Bela-arte
cada século tem a sua.

Já emolduras a tromba
com um esgar meio amarelo,
A festa foi de arromba
A vida, essa , é a martelo.

Já esticas as beiças
numa espécie de vocábulo.
Já abandonas as berças
na demanda doutro estábulo.

Não me grites, não me imites
não m'embrulhes nessas modas,
Não me leves, não me cegues
não me salves, não me fodas!
Casa tu com essa vida
guarda as vantagens todas
Mas não me venhas com tretas
não me dês palmadinhas, não me fodas!...

Ai ôh, Silver!...




Ralph Peters é uma espécie de John Wayne das redacções. Ou dito com maior isenção: o Luís Delgado lá do sítio. Vale a pena ler este artigo para orçarmos da geopolítica benemérita com que exaure as sinapses.
Ah, mas Peters é de outro fôlego: também escreve livros. Epopeias emocionantes; fábulas principescas (à la Maquiaveli, bem entendido). O seu último romance intitula-se: "New Glory: Expanding America's Global Supremacy."
Percebe-se a cavalgada. Os índios todos deste mundo, quer-me cá parecer, estão fodidos.
Mas o mais singular eclode quando, a determinada altura deste seu manual da "Supremacia Global", ele apregoa:
«We are hated not for what we have done to others, but for what we have done for ourselves. The example of our success is humiliating and bitter to all those who cling to traditions our power reveals inadequate.»
Ora, é impressão minha, ou isto soa a déjà vu. Mas onde é que eu já li isto? Ah, agora me lembro: então não é esta uma das fórmulas predilectas dos excelentíssimos judeus e seus acólitos de plantão?... Não se reclamam eles como vítimas profissionais de ódio por via do seu sucesso sempre genial e exuberante?...
Então, isto quer dizer o quê? Será que os americanos querem usurpar o trono dos hebraicos? O Anti-semitismo vai ser recauchutado em anti-americanismo? Ou são as duas faces actuais da mesma moeda? Estaremos na iminência duma fusão?...
Isto é terrível. Descobre-se, afinal, que quando criticamos a América, temos é inveja. Aliás, quando criticamos seja o que for, temos é inveja. O melhor mesmo é não criticar nada nem ninguém, excepto os pobres, os desempregados, os cidadãos anónimos, enfim, esses filhos da puta, invejosos do caralho, que só querem deitar a fateixa às benesses, prebendas, mordomias e ricos tachos de toda essa excelente gente bem sucedida, jet-coisa, triunfante, neste como em qualquer melhor dos mundos. Porque é que não se self-made-fazem como os outros, estes choramingas, hein?! Cabrões! Coça-micoses!
Aliás, doravante não vou estar com contemplações. Agora que descobri a moral, ai de quem eu apanhe a mijar fora do penico. Críticos dos gays? - Têm é inveja da sensibilidade e do jeito para as artes deles, bem como as facilidades de carreira. Críticos dos árabes explosivos? - Têm é inveja dos colhões dos gajos, já não falando nos haréns, aquém e além-Morte. Críticos das abortistas feministas? - Têm é inveja da emancipação das tipas, da isenção de lavar loiça, bem como dos orgasmos múltiplos. Críticos do capitalismo selvagem? - Têm é inveja do Belmiro, da família Bush e do Bill Gaitas! Críticos da globalização aos molhos? -Têm é inveja da Barbie, da McDonnalds, da Microsoft! Críticos dos metrossexuais? - Têm é inveja do estilo, do perfume e da pele depilada dos gajos! Críticos do Pacheco Pereira? - Têm é inveja dos megafones do gajo! Críticos do Governo? - Têm é inveja das jantaradas opíparas, das viagens à borla e da boa vida a expensas do erário! Críticos da pedofilia? - Têm é inveja da elite! Críticos da corrupção? - Têm é inveja dos carros e das casas dos gajos! Críticos do Saramago? - Têm é inveja do nobel e das tiragens do antigo serralheiro, controleiro e tarefeiro do DN! Críticos da incompetência? - Têm é inveja das promoções dos gajos e gajas! Críticos do nepotismo? - Têm é inveja das assessorias, consultadorias e outros berimbaus!...
Agora os pequeninos, os indefesos, os desgraçadinhos, -os otários, enfim - especialmente se velhos já gastos ou criancinhas à mão de semear, pois esses, que são muitos, mais que as mães, esses, não tem nada que saber: fogo na peça! Crítica? Qual crítica, qual carapuça! Nesses é ódio mesmo. Essa merda só estorva a felicidade e a carreira das pessoas modernas - só lhes enseba e armadilha os trampolins e as rampas de lançamento; só lhes torpedeia os cruzeiros, os safaris e as férias nas Bahamas. Isso é a escória, o excremento do paraíso!...

terça-feira, abril 25, 2006

O Mercado a funcionar

«Uma mulher foi presa na província de Henan, no centro da China, por ter assassinado oito pessoas e ter vendido os filhos das vítimas, noticiou hoje o jornal oficial chinês Southwest Express.
Matei os adultos por dinheiro, tornava a venda dos filhos mais fácil, refere o jornal, citando Jia.
Matar uma pessoa é muito fácil, primeiro é pôr um narcótico na comida, esperar que desmaiem, dar-lhes a comer pesticida e pronto. Não é diferente de matar uma galinha», disse Jia, segundo o jornal.
Jia, analfabeta, disse ter ganho até 15 mil reminbi (1,5 mil euros) pela venda de uma criança e disse ter vendido seis rapazes e uma rapariga, de acordo com o jornal.»

E ainda nos queixamos do nosso simpático e pacato Portugalzinho!... Ao menos, os nossos ultraliberais, mesmo os mais virulentos, limitam-se a delapidar os seus piores instintos em licenciaturas ou mestrados, e, por altura de crises mais violentas, não vão além -graças a Deus! - de garatujar blogues colectivos ou celebrar missas negras... em cafés.

Liberdade a Crédito

«Portugueses nunca deveram tanto dinheiro aos bancos
No início do ano, dívida ultrapassou os cem mil milhões de euros, um aumento de 10 mil milhões em apenas 12 meses.»

Viva a liberdade!
Pela trela da banca.

segunda-feira, abril 24, 2006

Um Postal para a Posteridade

Um postal-mais-que-perfeito, no Cocanha, de Miss Zazie.

Não exagerarei muito - aliás, não exagerarei absolutamente nada - se disser que este é um daqueles postais merecedores de uma peregrinação geral da blogosfera, seguida de adoração prostrada e depósito de oferendas e animais para sacrifício. Estais à espera de quê?!...

War Childreen



«Sudão: cerca de 300 crianças-soldados entregaram armas».

Suponho que lhes deram Game-Boxes em troca. Ao contrário das nossas, estas treinaram primeiro na realidade.

domingo, abril 23, 2006

As asas do despejo


Mas mesmo no voyeurismo coprófilo, Pacheco Pereira, como não podia deixar de ser, distingue-se. Alcandora-se. Emerge, olímpico, acima do vulgo, da ralé. Sobretudo quando o que está em causa é espreitar o traseiro à própria ralé, não quer deixar os seus guardanap...digo, pergaminhos, por mãos alheias. Nunca! Dá-se ares, devassa sobre a bosta, altaneiro, de monco empertigado e entoando glu-glus. Um requintado –gebo, mas requintado, sem dúvida. Um sobreperverso. Um Necas-plus-ultra, como diria o Caguinchas (que, a esta hora, se não estou em erro, já deve ter saído em liberdade da penitenciária de Lisboa). Compenetremo-nos: O trivial não o satisfaz, ao Pacheco. É algo acima da banalidade o que o obceca. Não espreita apenas pelos sanitários, à coca dos despejos mais transbordantes. Não; regista também, meticulosamente, as horas das visitas. O tempo médio. Estabelece gráficos, estatísticas, livros de ponto. Sopesa e analisa. Vigia fermentações e mede velocidades de sedimentação. Nomadiza, enfim, com a ubiquidade inefável do anjo da guarda republicana e a gulodice intrépida do sociólogo beija-flor.

sábado, abril 22, 2006

A Verdade e os Filósofos

Feitios


«Tendo metido a sua moeda na ranhura de uma máquina automática, o Capitão Cap caiu numa terrível cólera ao verificar que nada se mexia no aparelho e que o chocolate anunciado não se apresentava.
- Cambada de ladrões! - espumava ele.
E acrescentou:
- Hei-de vir cá esta noite com uma carga de dinamite e farei ir pelos ares esta maldita máquina.
- Ora aí está, Capitão -disse eu -, uma excessiva vingança para uma desgraçada moeda de dois soldos.
- Não é pelos dois soldos! Estou-me nas tintas para os dois soldos! Não quero é que me f...!
De facto, pouca gente conheci tão susceptível como Cap. em certas alturas.
Pronto a imaginar que toda a humanidade está combinada para o roubar, não abranda na sua ira e rumina sem descanso as mais retumbantes e cruéis desforras.
Ao aperceber-se um dia de que o seu merceeiro lhe vendera uma libra de açúcar com 485 gramas, voltou no dia seguinte e atirou para as azeitonas e as ameixas do indelicado lojista uma mão-cheia de estricnina.
- Não é pelos 15 gramas de açúcar - desculpava-se ele delicadamente. - Estou-me nas tintas para os 15 gramas! Não quero é que me f...!
Numa outra circunstância, as coisas foram até mais longe.
Num hotel de Marselha onde habitualmente se hospedava, verificou ao fazer as malas à partida, que lhe faltava um colarinho postiço.
Não havia dúvida. O criado do hotel, na sua ausência, abrira a mala e roubara-lhe o objecto.
Cap não disse uma nem duas. Em vez de voltar a Paris, onde tinha de ir tratar dos seus assuntos, meteu-se num navio com destino a Trieste.
Trieste -quem não sabe isto? - é, tal como Hamburgo, o grande mercado europeu de animais ferozes.
E logo teve a sorte de ir dar com uma verdadeira pechincha: um jaguar adulto, cujo mau carácter teria feito perder a paciência a um santo e que lhe venderam por um preço irrisório.
Este jaguar foi introduzido numa sólida mala, uma dessas malas em que a chapa de aço desempenha um papel mais considerável que o vime ou a lona encerada.
Um rápido "steam-boat" voltou a trazer para Marselha o rabujento Capitão e o seu feroz companheiro.
O jaguar que, no estado livre, já não é de uma mansidão notável, perde mais ainda a sua sociabilidade com a estada de uma semana dentro de uma mala, mesmo quando o dono tomou a precaução de lá meter, com ele, uma dezena de quilos de carne de cavalo de primeira qualidade.
O nosso jaguar não se portou de maneira diferente da maior parte dos seus congéneres.
E precisamente, o mesmo criado de hotel teve a infeliz ideia de se apropriar de um lenço que pertencia ao nosso amigo.
Então, aí, então...! a tampa da mala levantou-se mais bruscamente do que podia esperar o infiel servidor.
O pobre jaguar, feliz por poder desentorpecer os músculos, manifestou a sua alegria com uma carnificinazinha que abrangeu o culpado criado, duas criadas, três viajantes, o patrão, a patroa do hotel e mais alguns senhores sem importância.
Quando um jaguar se diverte, nada o pode fazer parar.
- Pois bem, senhor - concluia alegremente o Capitão Cap-, venho muitas vezes para este hotel e nunca tive a deplorar a ausência nem mesmo de um botão de punho... Que quer que lhe faça, não suporto que me f...! »

- Alphonse Allais, "Le Captain Cap, Ses aventures, ses idées, ses breuvages"

Moral mais edificante que a deste belíssimo naco de prosa não conheço. Eu sou tal qual assim: Também não é pelas pintelhices. Estou-me nas tintas para as pintelhices. O que eu não gosto é que me f...!


PS: Além de que às venetas do Capitão acrescento, verdadeiro 2 em 1, os caprichos do felino: quando um dragão se diverte, também nada o pode fazer parar.




Rasputinices de um cluster



«Now, thanks to a misguided war and a bungled occupation, along with a string of foreign-policy failures that have alienated U.S. allies and triggered a wave of anti-American feeling around the globe, the numbers and influence of those Cheneyites outside the office have receded. No longer quite so commanding, the office seems more like a bunker for neoconservatives and their fellow travelers in the administration. Yet if only because of Dick Cheney’s Rasputin-like hold over the president, his office remains a formidable power indeed. »

Uma radiografia dum certo cluster na administração americana. Vale a pena ler.

Aproveito para informar que o petróleo já atingiu os USD75. And climbing...

sexta-feira, abril 21, 2006

Punhetódromos sibilinos


Eu só não percebo uma coisa: quando vosselências se põem com esses salamaleques todos, com essas manicures do conceito, mais esses peelings da ideia, enfim, com essas pívias descafeínadas do pensamento "ultralight", porque diabo cismam de meter o Dragão a servir de rodapé?!... Mas que raio faço eu nessas procissões ad-hoc, em punhetódromos tão solenes? Sirvo porventura de mefistófeles padroeiro na abertura da Santa caça-ao-pintelho?
Temos agora voyeurismo de caixas de comentários. Há tipos que, afinal, andam pelos blogues para espreitarem as retretes. Os postais são irrelevantes, servem apenas de pretexto para mirar quem alça a perna no postal. No fundo, são os graffitis nos azulejos, na porta da sanita, na tampa do autoclismo que lhes interessa. Só que não contentes, exigem explicações, clamam ao dono da casa que vire faxineiro e apague certas obscenidades contrárias aos mandamentos da verdadeira doutrina. Não apenas literatura, exigem religião, ou melhor, moral e religião. Embicam de dar opiniões sobre as opiniões, de vasculhar as excreções em busca de indícios, de censurar na seara alheia, de tonsurar as cabeleiras púbicas e vacinar os chatos comensais. No melhor dos casos, pelos vistos, vêm à casa dos outros, não para visitar os outros, mas para espiolhar quem lá vai, quem lá defeca, se o faz bem ou mal vestido, se é gente fina, selecta, crente; se lava as mãos depois do acto, se sacode não mais de três vezes; se, horror dos horrores, regando de pé, em vez de acocorado como manda o pulhiticamente correcto, salpica a alvura mosaica. E depois, com o sentido de humor de septuagenárias virgens e rebarbadas, de buço e verruga, vão a correr ratar e crocitar na praça, na sacristia, no confessionário do Big-Brother sobre as cusquices recolhidas.
Ficar ao nível de tais galinhices requeriria duas operações básicas: lobotomia e castração. Como é óbvio, dispenso tão distintos colóquios. Mais, dito em bom português: quero mesmo é que se fodam! Que brinquem com a pilinha deles, urdam tricôs e bordados no penico da moralidadezinha sonsa, mas deixem em paz a privada dos outros.

Quanto às caixas de comentários, não espremam mais a moleirinha a tentar decifrar o mistério: vão reabrir já de seguida. Com um uppgrade, ou seja: confiando ao vidente Lutz as funções, tão desejadas, de porteiro do mictório (agora convertido em discoteca); e ao sacristão Timshel o magistério de barman, servindo hóstias-pop e shots de água benta. Santa Helena, essa, velará do pedestal, com a graça do espírito santo na orelha e o detector de "pintelhices heréticas" em riste.

Passem bem e bloguem longe.

Subsídios da literatura a uma crítica literária

Aproveito esta magnífica digressão sobre o tema, para me consorciar através duns humildes subsídios aforismáticos. Uma breve retrospectiva dos críticos vistos pelo monóculo dos literatos. Para desanuviar de outras miragens mais polémicas.

«Mata-o, o cão! É um crítico.»
- Goethe

«Os críticos saqueiam muitas vezes as vítimas que esfaqueiam. Prestai atenção para ver se pouco depois não aparecem cobertos das vestes e das jóias de mediocridade que eles executaram publicamente.»
- Joaquim Nabuco

«Em alguns casos, aceitar a profíssão de crítico é apenas uma forma amargurada de renúncia.»
- Albert Guinon

«A mediocridade é mais perigosa num crítico do que num escritor.»
- Eugene Ionesco

«Um crítico literário é em geral alguém que ladra à porta do circo do editor.»
- Austin O'Malley

«O símbolo dos críticos devia ser o besouro: ele deposita os ovos no esterco de qualquer outro, doutro modo não os podia chocar.»
- Mark Twain

«Até há bem pouco tempo eu estava convicto de uma coisa: que a crítica literária requeria, no mínimo, literatura para criticar.»
- Dragão


É verdade que tenho péssima impressão dos críticos literários. Felizmente, o J.P.George não é desses. Se não estou em erro, é aquele faquir das letras que conseguiu ler toda a Margarida Rebelo Pinto de enfiada e, não esgotado com tamanha penitência, ainda foi capaz de criticá-la. Em suma: coroou o impensável com o impossível.
Haverá limites às faculdades sobrehumanas deste verdadeiro monge de Shaolin da sintaxe? Com que inaudita proeza crítica nos irá estupefazer a seguir? - as fotonovelas da revista Maria? A poesia de Quim Barreiros? A Lista Nacional das Páginas Amarelas?...
Ah, que suculenta -porém mortificante - expectativa!...

quarta-feira, abril 19, 2006

Rescaldo Verde, ou Do Pintelhério Mirabolante - II.


Interrogo-me se valerá a pena gastar o meu precioso tempo, a meias com o meu vulgar latim, a explicar a toda esta boa gente
1. Que não sou anti-semita (tanto árabes como judeus inspiram-me uma venerável neutralidade, lá na terra deles);
2. Que não sou judeofobo (tenho mais que fazer que andar a odiar e, ainda menos, a invejar judeus, até porque não lhes reconheço nem malefícios únicos nem talentos que mereçam especial ciúme);
3. Que, tão pouco, sou anti-sionista (acho muito bem que Israel exista e que Israel se defenda, como reconheço idêntico direito a qualquer outro país e, já agora, também aos próprios palestinianos que se sentem ocupados abusivamente).

Estes factos elementares são facilmente perceptíveis a grande parte das pessoas que usualmente me lêem, pelo menos aquelas dotadas daquilo que Aristóteles define como "intelecto activo". As outras, que não percebem o facto, debalde se tentaria compenetrá-las da explicação.

Uma coisa é certa: quem me conhece sabe que eu adoro tabus, caruncho santo e vacas sagradas. Estas, ainda mais, quando dão à luz bezerros dourados.

E, naturalmente, é um preceito básico para qualquer lutador que se preze: Onde mais gritam é onde mais lhes dói. Descoberto o ponto sensível, é aí que mais se lhes deve bater. Posso esquecer muitas coisas, mas isto nunca esqueço.
Em todo o caso, para verem a que nível hilariante se toureiam bacocos, sempre vos digo que quase toda a informação que fui expondo acerca do tal "anti-semitismo" (que serviu, aos mentecaptos de plantão, para me passarem atestados histéricos de judeofobia) foi, pura e simplesmente, retirada de sites como este:

Um site genuinamente sionista, pois é. Como Vosselências podereis comprovar, estão lá os que eu referi e muitos mais. Afinal, eles, os supremacionistas hebraicos, é que têm elaborado o mapa exaustivo destas pintelhices. Pretendem com elas fundamentar uma das suas teses basilares: a de que os gentios, sobretudo europeus, padecem duma disfunção mental congénita, duma tendência monstruosa para odiar judeus. Só isso, em seu soberano entender, pode explicar os tais "diagnósticos negativos" omnipresentes ao longo da civilização. Para eles, trata-se com efeito de promover o "judeu" ao estatuto de pura e absoluta vítima. De prejudicado milenar. O judeu é odiado porque é superior, mais inteligente, mais bem sucedido, melhor. No fundo, interessa-lhes criar um estado de excepção. Parece que isso dá lucro. A todos os níveis.
Mas, notem bem, que eles façam isso, até merecem a minha admiração, pela audácia, pelo engenho, pela astúcia. Que os outros vão nisso e chupem tão grosseiras frescuras é que, pelo contrário, merece o meu mais completo desprezo e o meu mais solene escarro. Diante de tamanhas larvas mentais, não me espanta que o mundo ande como anda: de Pôncio para Pilatos, de Cila para Caribdis, do nazismo saloio do Manel para o nazismo toino do Jaquim.
Contra tamanhos produtos do materialismo determinista, Deus impõe-se necessariamente. Refluimos para Ele, em desespero. Realmente, só por milagre divino é que uma vara destas poderá alguma vez evoluir acima da bosta onde, com tanta volúpia, refocila.

terça-feira, abril 18, 2006

Ninharias

«Petróleo supera 72 dólares em Londres.»

Ainda sou do tempo em que um dos motivos magnânimes apresentados para justificar a invasão do Iraque era estacionar o preço do barril de petróleo nos 15 USDólares. Nessa época, o barril orçava pelos 35 USD e a economia europeia derrapava e gemia, em aflição.
Agora, ao preço a que tem exorbitado, imaginem a pipa de massa que o Irão, como 4º produtor mundial, tem embolsado. E os Sauditas, como 1º produtor. E os Russos. E já agora imaginem também a Venezuela. E, se não for pedir muito, imaginem também as Gigantes Petrolíferas. É delírio meu, ou este ano que passou tiveram lucros astronómicos absolutamente recordes?...
Agora chamem maluco ao Ahmadinejad... E doido ao George W.
Entretanto, por incrível que pareça, quanto mais caro fica o petróleo, mais os preços aceleram em Portugal. Quem diria, hein?!...

Rescaldo Verde, ou Do Pintelhério Mirabolante - I


Transposta esta pré-época balnear, restabelecido o quórum na assembleia, voltemos então à vaca fria, antes que o animalejo congele.

Como é do conhecimento público, e deu brado nas touradas, procedeu-se aqui, no "Dragoscópio", a uma "Experiência de Campo" assaz arriscada. Consistiu esta em publicar uma série de postais onde se arrolaram algumas perspectivas gentias acerca dos judeus, ao longo da chamada "Civilização Ocidental".
Pessoalmente, não emiti qualquer opinião peremptória ou juízo assertivo sobre os mesmos. Limitei-me a reproduzir depoimentos de algumas figuras de renome civilizacional, acompanhadas de meras notas de rodapé que mais não fizeram que sublinhar o cerne daquelas. Ainda menos atestei, em modo ou tempo algum, que concordava ou discordava dos diagnósticos apresentados. (E também não foi preciso: cada qual extrapolou a seu bel-prazer e como lhe deu na real gana, ou melhor lhe conveio).
O resultado desta "experiência" não podia ser mais esclarecedor: de imediato, quase de roldão, de charola, fui ululantemente taxado, injuriado e despromovido a "antisemita", "racista", "nazi", "fascista" e outros despejos de idêntica finura. A mera alusão ao povo eleito em termos que não os idolátricos, segundo esta boa gente, atesta nem sequer crítica (justa ou injusta), mas ignóbil ódio. Quem não os ama com devoção, odeia-os sem compaixão. Ou pior: inveja-os, tem ciúmes da sua superioridade atávica, do seu estatuto especial. Planeia massacrá-los. Pois é: O velho leninismo maniqueu sempre em acção, sempre à coca!
O histerismo chegou ao ponto de um infeliz mental qualquer ter criado um blogue cuja temática se resumiu a urrar-me, com grande fúria e frenesim digno de colete de forças e cela almofadada, uma catadupa de acusações e labéus delirantes em torno do seu fetiche nitidamente predilecto: o "nazismo". Este lunático, adepto provável de onanismos necrófilos, obviamente, não conta grande coisa, mas outros houve, de gente supostamente racional, pregadora de morais e devoradora de hóstias. Cito um caso emblemático: Já depois de, pedagogicamente, aqui ter ficado demonstrada uma verdade muito simples –a de que o anti-semitismo (leia-se judeofobia) não foi inventado pelos nazis, não sendo sequer um património exclusivo das direitas, fascistas ou liberais -, ainda um bom samaritano se dignou acenar-me, lá do beco da Má Fé e da pura ciganice, com um "certificado" de "ur-fascista" (seja lá o que isso for). Mesmo que eu fosse anti-semita, e se o fosse não teria qualquer problema em afirmá-lo, alto e bom som (no que em mais não imitaria que, por exemplo, os filo-israelitas que não se cansam de urrar em extase o seu ódio benigno aos muçulmanos subitamente degradados a "nazis", ou "islamofassistas"), não estaria implícito que seria necessariamente nazi ou fascista. Podia ser igualmente comunista, socialista, liberal, monárquico, católico, protestante, muçulmano, republicano, anarquista, libertário, puritano, adventista do sétimo dia, etc, etc. No entanto, é apenas o "nazi" que ocorre a estas excelentes pessoas, panteões ambulantes de virtudes extraordinariamente democráticas. Porquê o nazi? Porquê, melhor dizendo, esta obsessão com o nazi - este fetichismo a todos os títulos despudorado, aleivoso e genuinamente epiléptico?
Em primeiro lugar, dir-se-ia que estes magníficos espécimes da raça humana trajam e desfilam sob ouropéis garridos da mais proficiente e tolerante das democracias, transbordando à flor da pele de jóias, cremes, botoxes, bostiques e perfumes pluralistas, mas lá por dentro, nos recessos da gordura cerebral e sobretudo nas circunvoluções cavilosas da mioleira, abrigam autênticos quartéis de SS Totenkopf, com parada, bordel, messe, latrinas e tudo. São, tudo o indica, imarcescíveis viveiros desses bizarros serviçais. Obviam à sua extinção; reincubam-nos ad aeterno. Basta atentar-se na extrema facilidade com que lhes estala o verniz e no fedor tóxico que exalam via sudorífera. Num ápice, ei-los que arreganham a dentuça e rosnam. À mínima pintelhice, eis-nos sujeitos ao pelotão: chamam-nos "nazi" hoje, como ontem - nos tempos áureos de Hitler - chamariam "judeu". O sentido é o mesmo: "desumanizar o oponente", degradá-lo para lá de qualquer possibilidade de réplica ou redenção. A mesma lógica preside a idêntico processo, só na aparência oposto. Apenas a moda varia; o macaco-manequim é o mesmo. E é igualmente a lógica do número, da manada, do bater no desgraçadinho - na coisa que nem direito à defesa tem: puro mal, completa abjecção, bacilo malfazejo. Claro está que, primeiro, por via ectoplasmática, cria-se o desgraçadinho, pinta-se-lhe a cruz (neste caso, suástica) na fatiota e aponta-se à turba; depois é só superintender ao linchamento público e ecuménico. De caminho, e nunca esquecendo, como é apanágio destes festins macabros, aproveita-se para todo e qualquer ajuste de contas ou retroactivo ominoso em dívida.
Em segundo lugar, dir-se-ia que a salganhada atingiu contornos de fenómeno pavloviano, de reflexo condicionado. Torna-se cada vez mais patente que existem determinadas palavras e temas que desencadeiam reacções automáticas de histerismo, frenesim ou assuada. A razão não é para ali chamada. Muito menos a análise crítica. Distanciamento intelectual, nem vê-lo! Imparcialidade é lepra. E o humor, pior ainda se for irónico, que requer uma elaboração superior da inteligência, esse, maldito seja! Aquilo, sem mais estações nem transbordos, vai direito ao cérebro reptiliano, ricocheteia no labirinto das vísceras e faz disparar uma espécie de grunhido pré-formatado. Um despejo de normalização mental, ao melhor estilo das vending-machines, entra em acção. Algures, um adestramento exaustivo, semi-lobotomizante, procustiano cobra os seus tributos, conduz - pela reata - ao pasto. A logofobia amestrada impera.
Finalmente, e aqui com inelutável certeza, a superficialidade meramente sebosa da tolerância faz-se acompanhar duma maquilhagem de cultura e conhecimentos que, invariavelmente, redunda num quadro deveras bisonho: quanto maior a ignorância sobre um assunto ( e ela chega a ser pavorosa), maior a arrogância postulante, o tom de esbirro assanhado e o hálito catequista do energúmeno a desgafanhotar-se do púlpito. A realidade, compenetremo-nos, jamais estará autorizada a exceder o espelho liliputiano dos seus preconceitos, das suas pequeninas certezas adquiridas numa qualquer loja dos trezentos da massificação modernaça, digo, das suas psicopatias e neuroses induzidas. Não há torcionário de trazer por casa, por pigmeu que seja, que não se sinta vocacionado, senão mesmo predestinado, a Juiz do Supremo.
No fundo, esta gente nem sabe realmente o que significa "nazi"; como desconhece o que significa judeu, ou "anti-semita", ou "semita", ou a maior parte das urnas ortopédicas que profere e desbobina com ares solenes e afectações de saloio esperto, de pato bravo mental. Não sabe, nem lhe interessa minimamente. Detesta quem ouse transpor a sagrada poeira das capas e o sossego sepulcral das prateleiras. Fala das coisas à maneira dos papagaios, dos adolescentes amamentados a sebenta, ou dos beatos entrincheirados na cartilha. Foi sulfatada contra o míldio da dúvida algures, entre filmes, compêndios e pasquins, e, borrifada de tais vaporizações desinfectantes, sente-se fecundada pela própria Luz Divina. Wikipeida-se nos interstícios de cagar-postes. Arremessa atoardas e ferretes sem qualquer outro intuito assinalável que não a pura intimidação, a terraplenagem e o silenciamento de toda e qualquer divergência. Traz a liberdade na boca e a masmorra no coração. Alguém lhe fez da cabeça alfobre, mas nem dá por isso. Saliva e abana a cauda, contentinha. Cumpre o manual à risca e esquadrinha pensamentos hirsutos, pintelheiras abscônditas, à cata de heresias. Obsidiam-na Autos de Fezes, em nome do Santo-Ofídio.
Que maravilhas reservará o futuro, neste melhor dos mundos, a estes galfarros sonsos? Sinceramente, não sei. Cumpre-me apenas garantir que vieram bater a boa porta.

A Imunidade à crítica

(...) o Holocausto é uma representação ideológica do Holocausto nazi. Como a maioria das ideologias tem relação, ainda que ténue, com a realidade. O Holocausto não é uma construção arbitrária, tem uma coerência interna. Os seus dogmas centrais estão ao serviço de importantes interesses políticos e de classe. Não há dúvida que o Holocausto se revelou como uma arma ideológica indispensável. Graças aos seus efeitos, uma das potências militares mais formidáveis a nível mundial, com um passado horrendo em termos de direitos humanos, reservou-se o papel de Estado "vítima" e o grupo étnico mais bem sucedido nos Estados Unidos reclamou também para si o estatuto de vítima. Desta situação singular de vítimas advêm dividendos consideráveis - em particular, a imunidade à crítica, por mais justificada. Posso acrescentar que os que gozam de tal imunidade não escaparam à corrupção moral que lhe é própria.»

- Norman Finkelstein, "A Indústria do Holocausto"

Quem é Norman Finkelstein?
Actualmente, professor na City University of New York, escreve sobre a sua família mais adiante:
«Os meus pais foram sobreviventes do ghetto de Varsóvia e dos campos de concentração nazis. Todos os outros membros da minha família dos dois lados foram exterminados pelos nazis.»
Entretanto, a tal "corrupção moral que lhe é própria" está cada vez mais extensível aos adeptos, devotos e catecúmenos. Ninguém como eles se indigna tanto com qualquer esboço de crítica. Promovem autênticos escândalos.

Isto, notem bem, é só o prelúdio à reabertura das hostilidades.

sexta-feira, abril 14, 2006

A Compaixão de Jesus



« Prometeu - Sim, libertei os homens do terror permanente da Morte.
Corifeu - E que extraordinário remédio descobriste para esse mal?
Prometeu - Insuflei-os com esperanças cegas!»
- Ésquilo, "Prometeu Agrilhoado" (tradução minha).


As religiões interessam-me essencialmente enquanto mitologias. Despidas do folclore da crença. Todas elas. É nesse esqueleto que adquirem a sua dignidade e é nessa dignidade que merecem o meu respeito.
Portanto, quanto eu me debruço sobre o mito que as sustenta é escusado virem reclamar-me sobre a crença que, eventualmente, vos sustenta a vós. Não estou aqui a colocar minimamente em causa as crenças seja de quem for - a crença é assunto do foro exclusivo de quem acredita; como o traje é matéria de gosto e vontade de quem o veste, nele investe e com ele se reveste.
Falemos então de Jesus. Da sua morte, mais propriamente.
É o Jesus-Deus que me interessa, o Jesus mito.
Confrontamo-nos com uma figura fascinante, muito semelhante a um Prometeu, por exemplo. Há ali um excesso sobre-humano, titânico de filantropia -entenda-se: de amor a esses seres miseráveis, infames, mesquinhos, pusilânimes, "filhos da dor e do acaso" que são os homens. Ora, Jesus, o mito, é um Deus que desce à forma humana e vem ser irmão do rebotalho do mundo. Nisso, contudo, não se distingue de outros deuses noutras mitologias; a sua singularidade é outra - é que não desce apenas à forma: desce rambém à carne. É ao fundo do abismo, ao âmago da treva, da matéria prometida a esterco que ele mergulha. E é com quem lá mora, com quem lá jaz, cativo, amnésico, perdido, que ele se irmana. Dir-se-ia um Deus que vem descobrir a sua humanidade e descobrir-se aos homens, mostrando a marca divina que há neles. O local onde esta teodiceia decorre fica entre duas "Ítacas": o coração de Deus que se compadece -e bate em Jesus- e o coração dos homens -onde Jesus vem exumar o coração de Deus.
Jesus é o contrário do demagogo: não diz façam, faz; não instiga apenas, não manipula, não parasita; pelo contrário, alimenta, cura, perdoa, acolhe. Muito mais que a mera receita, dá o exemplo. E mais ainda que o mapa para um qualquer tesouro, ensina a caminhar, caminhando. Não diz "vão", diz "venham comigo". Se tivessemos que resumir todo este legado aos homens numa palavra, ela seria: coragem. A coragem como exercício de um coração intrinsecamente divino; e a coragem, a limite, para enfrentar sem medo o Calvário, ou seja, o horror, a crueldade e a injustiça que parecem reinar no mundo. Que é preciso afrontar para viver. Aí, sobretudo, a coragem de esquecer-se de si, não só pelos outros, mas também pelo Todo, por algo que subjaz e é eterno. Que esteve no Princípio e estará no Fim. De onde tudo parte e onde tudo retorna.
Enquanto homem, este Deus-Jesus encarna o herói trágico, torna-se protagonista duma tragédia. Ora o herói trágico, ao contrário do "herói moderno", não se caracteriza por um excesso de egoísmo, de protagonismo onanista e de êxito pessoal/material. Jesus não acaba rico, aclamado, invejado e sabujado por hordas de gentalha interesseira e venal. Ao invés, enquanto herói trágico, Jesus comete um excesso de altruísmo, sacrifica-se pelos outros e sucumbe às mãos do Destino, cuspido, flagelado e crucificado por aqueles que tentou curar.
Tal qual Prometeu, Jesus sabe de antemão onde o seu excesso de amor o conduzirá. Pregados, no rochedo gelado ou na cruz, ambos pagarão. Ambos sabem que há um Destino -um sentido, uma razão de Ser - acima do fortuito, da babel e do caos - que importa cumprir. Não se nasce impunemente.
Só que Prometeu permanece divino, imortal nas suas penas. Jesus vai mais longe. Se Prometeu, por essência, está imune à morte, Jesus sabe que no fundo do abismo está esse cálice amargo. Se é essa beberagem que define os homens, como ser homem sem experimentá-la?
Notamos que o próprio Deus estremece diante deste ordálio final, mas culminante. É o fecho da abóbada. A chave do enigma. Sem ela tudo seria em vão. Falta experimentar a verdadeira essência do ser humano - falta, a Deus, ser Homem até ao fim, até à morte.
-"Porque me abandonáste?" - Clama Cristo, ao expirar, ao esvair-se do sopro divino que um dia animou o barro primordial.
Este Deus absolutamente humano, tragicamente humano, terror e piedade última, experimenta o desespero. Morre na cruz como um verdadeiro homem e, também, como só um Deus seria capaz de morrer: numa ilimitada compaixão - agora, no instante final e por um instante, também por si próprio. Faltava, ao Deus, descobrir o Homem que havia em si. Foi só diante da morte que, finalmente, descobriu essa solidão inexpiável de que é feito o indivíduo.
De nós, pobres coitados, que mais há a dizer? Alguma vez iremos descobrir a marca divina que existe, esquecida e soterrada, em nós?...
Pregámo-Lo na cruz, há dois milénios atrás. Nunca mais deixámos de pregá-lo. Para que Ele não nos abandone, não nos deixe aqui sozinhos. Temos medo da escuridão.

quinta-feira, abril 13, 2006

Ostras e pérolas



(Para a semana, retomaremos as conclusões e considerandos acerca da nossa "Experiência de Campo". O grande assunto tabu fica em banho maria até lá. Para já, rendamos homenagem a temas bem mais interessantes e, sobretudo, bem mais importantes.)

«Logo a primeira expressão "cristianismo" é um mal entendido - apenas existiu um cristão, e esse morreu na cruz. O "Evangelho" morreu na cruz. Aquilo a que, desde então, se chama "Evangelho", era já o oposto do que ele tinha vivido: uma "má nova", um "Dysangelium". É falso até à insensatez ver numa crença, ou seja na crença pela redenção pelo Cristo, a marca distintiva do cristão: a prática cristã, uma vida como a viveu aquele que morreu na cruz, apenas isso é cristão... Uma tal vida é, hoje ainda, possível, e para alguns necessária: o cristianismo autêntico, o cristianismo primitivo, será possível em não importa qual época... Não uma crença, mas um fazer, acima de tudo muitas coisas a não fazer, um modo diferente de ser. (...)
A vida do redentor nada mais foi que essa prática - a sua morte nada mais foi também que ela... Não necessitava já de qualquer fórmula ou qualquer rito nas suas relações com Deus - nem sequer a oração. Liquidou as contas de toda a doutrina judaica da penitência e da reconciliação; reconhece que é unicamente a prática da vida que permite o sentir-se "divino", "bem aventurado", "evangélico", sentir-se a cada instante "filho de Deus". Nem a penitência, nem a "prece pela remissão" constituem caminhos para Deus: só a prática evangélica conduz a Deus; ela, justamente, é "Deus"! - O que já não estava em circulação depois do Evangelho era o judaísmo das noções de "pecado", "remissão dos pecados", "fé" - toda a totalidade dos ensinamentos da igreja judaica era negada na "boa nova".
O profundo instinto do modo como se deve viver para o homem se sentir "no céu", para se sentir "eterno", enquanto que qualquer outro comportamento o impede de se sentir "no céu": é essa a única realidade psicológica da "redenção". - Uma conduta nova, não uma nova crença...
(...) O "reino dos céus" é um estado de alma - não qualquer coisa que sucede "para além da terra" ou "depois da morte".(...) O "reino de Deus" não é uma coisa que se espere; não tem ontem nem depois de amanhã, não vem daqui a "mil anos" - é algo sentido por um coração; está em toda a parte, não está em parte alguma...»

- Nietzsche, "Anti-Cristo"

É preciso abrir a ostra para encontrar a pérola. Tem muito -quase tudo - de ostra a filosofia de Nietzsche. E, claro está, não é para chapinhadores de charco, mas para mergulhadores de águas mais profundas. E perigosas.
Tome lá, cara MP, que lhe dou eu, porque também é uma pérola!... Com votos de uma boa Páscoa, para si e todos os seus.

Quando os peões se rebelam



«Iraque: oficial britânico declarado culpado por recusa a servir»

A ler também: «US on par with Nazis: RAF man».

quarta-feira, abril 12, 2006

Crueldade para com um animal


Um mamífero ungulado de estirpe indefinida e pai incógnito (que suspeito, todavia, aparentado aos chibos), decidiu, pelos vistos, imolar todo o seu valioso lazer ao bizarro passatempo e doméstico lavor de me salmodiar inflamados zurros.
Pelo escarcéu das preces, acredito que tenha coisas muito importantes a rogar-me, quiçá milagres que alcancem resgatá-lo da sua deriva cavalgadurenga, ou poções mágicas que permitam enxertar-lhe faculdades racionais, ainda que rudimentares.
Lamentavelmente, não disponho dos meios que me permitam decifrar ou minimamente penetrar tão tosco e estrebariado idioma. Para ser franco, nem lobrigo bem se zurra, urra ou brame. Acredito que sofra, dado o resfolgar escrofuloso com que ocupa os intervalos.
Não obstante, peço-lhe encarecidamente, estimada e devota besta: não desespere. Vá zurrando. Tente ilustrar a jeremiada com linguagem gestual. Deve existir algures um dicionário de asnoguês, bem como uma gramática. Mal os descubra, ou algum jardim zoológico mos forneça, tentarei entender a língua e o respectivo dialecto. Já afixei anúncios em vários jornais. Senão, em último recurso, requisitarei os serviços de um tradutor, desses que por aí abundam, hiperactivos, pomposos, inexpugnáveis a qualquer tipo de humor. Não sei se sabe mas, aos poucos, voltamos às épocas douradas, fabulosas, em que os animais falavam. Ainda não falam, é certo, mas já blogam.

PS: Uma coisa, no entanto, já deu para perceber e creia que suscita a minha sincera piedade: o digníssimo asno foi –ou está a ser? – vítima de experiências médicas no hospital Júlio de Matos.


(e que Deus me perdoe, mas não resisti. Foi mais forte do que eu...)

Discurso sobre o Pequeno Filho-da-Puta



Este postal é só para retribuir uma gentileza ao caro Timshel:


«o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza
diz o pequeno filho-da-puta
no entanto, há
filhos-da-puta
que nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno filho-da-puta.
o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e
mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno filho-da-puta
no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o pequeno filho-da-puta
todos
os grandes filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do pequeno filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
dentro do
pequeno filho-da-puta
estão em idéia
todos os
grandes filhos-da-puta
diz o pequeno filho-da-puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.
é o pequeno
filho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno filho-da-puta. »

- Alberto Pimenta, "Discurso sobre o Filho da Puta"

terça-feira, abril 11, 2006

Três conclusões preambulares e duas perguntas

Como ficou demonstrado, à exuberância:

1. O chamado "anti-semitismo" não é património exclusivo de nenhuma época, povo, ideologia, regime ou, sequer, religião.

2. Em contrapartida, o "anti-semitismo" é uma constante ao longo da Civilização ocidental. Desde o período greco-romano até ao século XX, o judeu é visto como uma espécie de "corpo estranho" e, curiosa sintomatologia, é acusado invariavelmente do mesmo tipo de comportamento e de mentalidade. E não são propriamente lúmpens aqueles que proferem os piores diagnósticos.

3. O "anti-semitismo" é um termo incorrectamente usado: porque os árabes são igualmente semitas. O que resulta no bizarro fenómeno de os maiores campeões anti-semitas da actualidade serem os próprios semitas, árabes e judeus, que se odeiam violentamente, cada vez mais, e para lá de qualquer hipótese de reconciliação. Assim, em se tratando de execração dos judeus, devia usar-se o termo judeofobia.

Antes de prosseguirmos com outras conclusões igualmente óbvias, seria interessante propor uma questão para debate:

A judeofobia tem um culpado exclusivo e patológico -os gentios , e uma vítima profissional e sempiterna -os judeus? Ou a judeofobia é uma responsabilidade repartida e é promovida e detonada, desde sempre, por um comportamente sobranceiro, tribalista, fundamentalista, racista (um racismo de génese religiosa) e misantropo dos próprios judeus?

Lembremos alguns preceitos daquilo que constitui a matriz e o cimento da "nação judaica" ao longo dos séculos: a sua "educação"...
Segundo o Pentateuco - (seleccionado por Voltaire):
- "Quando o Senhor vos entregar nações estrangeiras, degolai a todos. Não poupeis um só homem. Não tenhais piedade de ninguém."
- "Se não observardes todos os mandamentos e todas as cerimônias, amaldiçoados sereis na cidade como no campo... Padecereis fome, pobreza. Morrereis de miséria, de frio, de penúria, de febre. Tereis sarna, rabugem, fístula. Tereis úlceras nos joelhos e na barriga das pernas."

Segundo o Talmud:
-"Os judeus são chamados seres humanos, mas os não-judeus não são humanos. Eles são bestas." - Baba mezia, 114b
- "Mesmo tendo sido criados por Deus os não-judeus ainda são animais em forma humana. Não cai bem para um judeu ser servido por um animal. Portanto ele será servido por animais em forma humana."- Midrasch Talpioth, p. 255 Warsaw 1855
- "É permitido tirar o corpo e a vida de um gentio." - Sepher ikkarim III c 25
- "Um gentio herético você pode matar com suas próprias mãos." - Abodah Zara
-"É da lei matar qualquer um que nega a Torah. Os cristãos pertencem à categoria dos negadores da Torah." - Coschen hamischpat 425 Hagah 425

Já agora, outra questão:
O que aconteceria se as nossas crianças, durante séculos, fossem educadas segundo os princípios e doutrinas do "Mein Kampf"?... Tornar-se-iam tolerantes e fraternas? Melhor: Tornar-se-iam adoráveis?

segunda-feira, abril 10, 2006

O Holocausto dos Pequeninos

O Lutz coloca a questão no Quase em Português. Eu vou tentar responder em português completo. Ir ou não ir acender velinhas, ou convocar à procissão das velas, eis a questão.
Acho muito bem que os judeus concessionários, os judeolatras espalhafatosos, bem como quaisquer outros devotos avulsos da Santa Indústria do Holocausto –em suma, todos os supremacionistas hebraicos cá da paróquia -, vão, em lacrimejante romaria, acender velinhas para o Rossio. Desde as lendárias eras, em que Arnaldo Matos por ali apascentava os seus rebanhos, que um dos ex libris da capital se vem ressentindo dum défice de fenómenos pitorescos e folclóricas transumâncias. Bem publicitado, isto até vai decerto atrair turistas, o que é óptimo para o comércio, e, caso se venha a transformar num festival, corre mesmo sérios riscos de vir a superar o “Super Rock Super Bock”, o que, louvado seja Jeová, ainda é mais excelente.
Para tornar a peregrinação de todo memorável e o rilhafoles ainda mais angélico, o ideal, senão mesmo o sublime, seria até que, na queixumatosa jornada, os supremacionistas arianos se juntassem aos supremacionistas marranos. Estes últimos, naturalmente, e como manda a tradição, acompanhados dos seus bodes totemísticos, aqueloutros escoltados pelos seus rothweillers emblemáticos. Uma vez congregada diante de D. Pedro IV e respectivo chafariz municipal, a heteróclita chusma, num memorável e redentor Woodstock 2006, adoptava os seguintes procedimentos: os supremacionistas hebraicos acendiam as velas, os supremacionistas arianos sopravam-nas e, todos juntos, cantavam os “parabéns a você”.
Estes, pelo menos, seriam os meus sinceros votos (ao som de “Imagine”, do meu estimado John Lennon).
A realidade, porém, bruxa obcecada em arruinar felicidades, não iria estar certamente pelos ajustes, e cavilaria, como é seu vil timbre e hediondo vício, contra o pastoral idílio. O mais certo era os cães embirrarem com os bodes, os bodes marrarem nos cães, os Marranos acenderem, os Arianos apagarem, e nós, fulanos e sicranos - coitados, que não temos pedigree nenhum-, rirmos a bandeiras despregadas.


Em resumo: não vou lá. Mas mandem-me uma t-shirt pelo correio, à cobrança. E já com o número correcto, definitivo (e estampado a azul, se for possível) desse micro-holocausto. Um holocausto, diga-se, de trazer por casa, requentado, regurgitado e enfiado às colheres pela memória abaixo. Um holocausto, enfim, como este país em que vamos estiolando: dos pequeninos, dos mesquinhos e dos ressentidos.

PS: caro Lutz, por especial consideração, lá dei. Mas dispenso o “linkezito”. Foi desinteressada, a esmola, acredite, como eu geralmente sou.

domingo, abril 09, 2006

O Último episódio da incrível Saga!... Não perca!




Para concluir a "Experiência de campo" que temos vindo a realizar neste blogue, eis alguns registos da judiovisão clássica:


Séneca considera os Judeus como “a nação mais maligna de todas”. No que é corroborado por Cícero, Horácio, Ovídeo, Marcial e Juvenal. Tácito foi ainda mais longe: classificou os rituais religiosos hebraicos “contrários aos da restante humanidade” e proclamou que eles [os judeus] eram “sinistros, vergonhosos e tinham sobrevivido apenas graças à sua perversidade”. Criticou-os também pela “sua obstinada solidariedade, que contrasta com o implacável ódio que nutrem em relação à restante humanidade”. Quintiliano, por seu turno, considerou-os "como uma praga para os outros povos". Cícero verberou-lhes ainda o "tribalismo" e a "influência nas assembleias". Celsus escreveu que eles "se jactavam de possuir uma sabedoria superior e de desprezar a companhia dos restantes homens".
Do lado grego, Filostrato acreditava os judeus desde há muito se opunham à restante humanidade e que eram homens de modos de vida misantropos, que não partilhavam nem comida nem bebida com outros."
Finalmente, e para terminar em beleza (entenda-se: horror, tragédia, martírio) esta nossa digressão pelas escarpas e penhascos do anti-semitismo, aqui fica um conjunto geral de citações e figuras da cultura ocidental -além das que anteriormente visitámos -, a quem eméritos activistas judeus - como Dershowitz, Pawel Spievak e Daniel Pipes -, atribuem anti-semitismo, em grande parte dos casos, feroz.
«Os judeus podem ser definidos, muito plausivelmente, como a raça mais desagradável de que já ouvi falar.»
- H.L. Mencken

«Párem de ser judeus e comecem a ser seres humanos»
- G. B. Shaw

«Toda a carcaça podre está atestada de vermes judaicos.”»
- Henry Adams

«Um estudo cuidadoso do anti-semitismo, respectivos prejuízos e acusações poderá ser de grande valor para muitos judeus, que não avaliam adequadamente a irritação que infligem.»
- H.G. Wells

«Gente brutal, homens vis e vulgares»
- Denis Diderot

«Os judeus continuam a não poder proclamar qualquer génio verdadeiro, nenhum grande homem. Todos os seus talentos e habilidades giram à volta de estratagemas e baixa charlatonice...São uma nação de aldrabões.»
- Immanuel Kant

«O Judeu é, por temperamento, um anti-produtor, não um agricultor, nem um industrial, nem sequer um verdadeiro mercador. Não passa dum intermediário, sempre fraudulento e parasita, que opera, tanto no comércio como na filosofia, por meios de falsificação contrafacção e ciganice.»
- Proudhon

«Não vejo outra maneira de nos protegermos contra essa gente senão conquistando a sua Terra Prometida e enviá-los a todos para lá.»
- Fichte

«Uma seita exploradora, um povo de sanguessugas, um parasita devorador singular, justa e intimamente unido não apenas por intermédio de vínculos nacionais, mas também através de todas as divergências de opinião... »
- Bakunine


Outros anti-semitas notórios foram: T.S.Eliot (anti-semita literário bem como social, mesmo após o holocausto), Edgar Degas, Pierre Renoir, Thomas Edison, Henry Ford, Richard Wagner , Aleksander Pushkin, Goethe, Sobel, Fourier, Marx, Tousenel, Le Roux, Dreiser, Ferdinand Lasalle, Céline, etc.



Em breve, as conclusões. Para já, uma, óbvia e deveras sugestiva: o anti-semitismo não é património exclusivo da direita.
Ai a sacristia que vem abaixo!...

sábado, abril 08, 2006

Amarguras da Minipausa

Conta-me o Arrebenta que, «na sua coluna de despedida do “Diário Digital”, Clara Ferreira Alves proclamou à galáxia e a todos os extraterrestres que nos escutam (em supino êxtase, convém dizê-lo) que “A Blogosfera é um saco de gatos, que mistura o óptimo com o rasca, bla-bla-bla, sendo que "nos piores [blogues] existe e vegeta um colunista ambicioso, ou desempregado, ou um mero espírito ocioso e rancoroso”(...) e o mais grave é que “dantes, a pior desta gente praticava o onanismo literário e escrevia maus versos para a gaveta, [publicando] agora as ejaculações”...

Vosselências não sei; mas eu, o que deduzo desta amargurada parlenda é que, agora que está desempregada, a Clara Ferreira Alves vai abrir um blogue.

Venha depressa, cara senhora! Nós, os ociosos, chamar-lhe-emos um figo.

sexta-feira, abril 07, 2006

A patrulha Anti-anti-semita (reposição)




Já agora, não se perde nada em recordar o que eu aqui escrevi, neste blogue, em 27/07/2004 (vai para dois anos, portanto). A actual "chainsaw extravaganza", que muito tem intrigado alguns leitores desta taberna, não é mais que um burilar ad nauseam da tese aqui apresentada (só por causa das intimidações e do histerismo mongo):

Parecem existir patrulhas na blogosfera. Na blogosfera, aliás, como em todo o lado. Ou Brigadas da moral e bons costumes, se preferirem. Uma delas, já pude constatá-lo, é a Patrulha Anti-anti-semita. Vela, de prevenção. E faz bem. Todo o cuidado é pouco. Porque, juntamente com a homofobia, o anti-judaísmo é um dos grandes problemas que assalta a nossa sociedade. É sabido, é do domínio público: na sombra, em tertúlias secretas, conspiram inúmeros torcionários raivosos animados de torpes desígnios, quais sejam o de construírem campos de concentração no Alentejo, onde se procederá à Solução Radical (versão portuguesa da "final" hitleriana). É uma obsessão dos povos em geral e do nosso em particular. Acordar um belo dia e ir matar judeus. Melhor e mais ancestral forma de descomprimir as ideias não se conhece. É verdade que não os massacramos há muito tempo. Os nossos brandos costumes e natural preguiça torpedeiam-nos esse louvável empreendimento. O clima também não ajuda, sobretudo no verão. Mas em pensamento não custa nada, a imaginação é livre. Como não custa nada emitir o apoio e concordância àqueles, mais industriosos, que o fazem. Oramos, em segredo, por holocaustos que se abatam e os banhem condignamente, como eles merecem. Deus não dorme e, desde o início, está escrito que lhes devota uma especial e canina predilecção. Por isso, repito, todo o cuidado é pouco. Mais grave que a crise económica, o desemprego, a corrupção, a deseducação, a incúria e a incompetência dos governantes, o estado de boçalidade e estupidez generalizada da população, a começar nas pseudo-elites e a propagar-se, em cascata, (na verdade, em borrão) por ali abaixo (na realidade, em redor), pois mais grave que isso tudo e que os próprios incêndios que, anual e pontualmente, visitam a pátria, é o anti-semitismo, essa praga endémica, infecto-contagiosa, febril e avassaladora que nos devasta. Resulta, certamente, duma mosca que nos morde, uma tsé-tsé mais formidável que qualquer outra, que nos inocula dum veneno demoníaco, hediondo, labefacto, capaz de transformar pacatos cidadãos em lobisomens sedentos de sangue hebraico. Digo isto porque tenho olhos para ver e reparo à minha volta. Detecto esgares maldosos a cada esquina, soslaios inquietantes em cada janela. Arrepio-me e estremeço com a proximidade da lua-cheia. O barril de pólvora está pronto -aliás, está sempre pronto, ansioso de expandir-se, com fragor, em todas as direcções- e, à mínima fagulha... Por isso, abençoados estes patrulheiros, bombeiros de sentinela ao barril, enfermeiros de esponja molhada e plantão à temperatura, exorcistas, de cruz em riste e esconjuro à besta! Todavia, eu, pessoalmente, lamento informar, não tenho muito tempo para os judeus: obsidiam-me, outrossim, os espanhóis. Concentro nestes a generalidade das minhas tendências e projectos massacrantes -e acrescento que não sou nenhum leigo na matéria. Voto-lhes uma animadversão ancestral, empedernida. Sou anti-castelhano, confesso. Um caso perdido, merecedor, quiçá, de internamento. Aceito que, dadas as actuais circunstâncias europeias, isso não será lá muito curial nem adequado, mas está-me na massa do sangue, é mais forte do que eu. Incendeia-me a imaginação de carnificinas metódicas e desinfestantes. Fora isto, em interlúdios ocasionais, também desconfio dos americanos, esses cabrões; tenho umas velhas contas a ajustar com os ingleses, esses filhos da puta; e ainda não esqueci os sarracenos, esses salafrários. São estas as minhas prioridades. Culturais, sobretudo; psicopatas, talvez. Mas eu sou assim. Confesso que não me sobra tempo nem agenda para os judeus. Acho mesmo que o problema deles é o de terem a mania que são importantes, de cismarem que são predestinados e protagonistas, ainda que, não raramente, pelas piores razões. Pois que tenham, pois que sejam. Estou-me nas tintas. Para mim, interessam-me tanto como os singapúricos, os monegascos, os suiços, ou qualquer desses povozinhos ridículos e anódinos. Conspirar, é natural que conspirem. Todos conspiram, especialmente em se tratando de pilhar os outros. Contaminaram-nos a civilização? Não muito. Uma pocilga não é facilmente contaminável e, de resto, os romanos ( autores da pocilga) contaminaram muito mais e ninguém se queixa. Ah, e a propósito, pensando bem: qual civilização? Há quem não os grame, nem com molho de tomate? Também não deixa de ser natural: eles não gramam ninguém que não eles próprios. Trata-se, pois, duma aversão recíproca e cultivada milenarmente. O anti-semitismo vai de mão dada com o anti-gentilismo. Mas tudo isto, sinceramente, pouco me interessa. Combates na lama só ficam bem a mulheres jovens e pouco vestidas. E não falaria sequer disto, não se desse o caso de, por detrás do fato de homem-aranha dos patrulheiros, tresandar o bedum ancestral dos fariseus e dos cameleiros das arábias. Ora, fariseus, tenho que reconhecê-lo, é a única espécie de gente capaz de me distrair, ainda que momentaneamente, dos espanhóis.


Aproveito para lembrar que fariseus foi* a única escória que até conseguiu tirar do sério o bom Jesus. Ora, eu não possuo nem um infinitésimo milionésimo da bondade, nem da misericórdia Dele.

* - a forma verbal "foi" é mesmo assim: "fariseus" não é plural; é uma única massa amorfa, acéfala, rastejabunda, igual em todos os tempos e em toda a parte.

The great Toinos Chainsaw massacre - A poesia



A Ronsard cognominaram de "príncipe dos poetas". O que em nada o inibiu de utilizar a sua real pena para deplorar a negligência do Imperador Tito em tempos idos. Declama ele, contristado:

«Não amo nada os judeus, eles puseram na cruz
Esse Cristo, esse Messias que nossos pecados apaga
[...]Filho de Vespasiano, grande Tito, devias,
Destruindo sua cidade, destruir sua raça
Sem lhes dar tempo, nem momento nem espaço
De procurar em outra parte outros diversos lugares»

É assim, com visível mágua, que Ronsard constata a perda duma grande oportunidade por parte das Legiões Romanas. Quiçá, uma "solução inicial", em tudo benemérita e poupadora de ulteriores complicações e contrariedades. «Já que estavam com a mão na massa, ou melhor na "Massada"...» - terá, eventualmente, pensado o poeta Ronsard.

quarta-feira, abril 05, 2006

The great Toinos Chainsaw massacre - Humanistas e Reformadores


No príncipio do século XVI, o humanista Reuchin surge em defesa da literatura hebraica, contra o projecto dos dominicanos de Colónia que se propunham queimar todos os livros hebreus. Reuchin sustenta que se destruam apenas as obras injuriosas ao Evangelho. Não obstante, a perspectiva que nos transmite da sobranceria religiosa judaica não é lá muito abonatória:
"Todos os dia eles ultrajam, maculam e blasfemam Deus, na pessoa de seu Filho, o verdadeiro Messias Jesus Cristo. Chama-lhe pecador, feiticeiro, enforcado. Chamam haria; fúria, à santa Virgem Maria. Chamam heréticos aos apóstolos e discípulos. E a nós, cristãos, consideram-nos como estúpidos pagãos."

Na mesma época, surge Martinho Lutero. Um verdadeiro meteoro.
«No começo da sua carreira de Reformador, acalenta a esperança de convertê-los. O tratado "Jesus Cristo nasceu judeu", que publica em 1523, está replecto de consideração e de amabilidades em relação aos judeus. Foi o papismo, com as suas idolatrias e escândalos, que se afastou da verdadeira fé. A Igreja, ao confiná-los na usura, ao acusá-los de "utilizar o sangue cristão para eliminar o seu mau odor" e de "não sei que outras baboseiras", impediu-os de viver e de trabalhar connosco. "Se queremos ajudá-los, é a lei do amor cristão que devemos aplicar-lhes, e não a lei papista".» (-Jean Delumeau, "História do Medo no Ocidente")

Ímbuido deste espírito benemérito, a arder num vigor ufano e proselitista, Lutero, como lhe competia, lançou-se na conversão dos incompreendidos judeus. Apenas para descobrir que estes, sem a mínima gratidão, se barricavam contra todos os seus idílios, inexpugnáveis aos seus denodados esforços e imunes à completa hoste das suas veneráveis fantasias. Delapidados vinte anos em árdua e baldada campanha, estala o verniz do Grande Reformador. É já um Lutero frustrado, furibundo, histérico, que, em 1543, publica dois panfletos -"Contra os judeus e suas mentiras" e "Shem Hamephoras". Nestes, em vez da piedade, troveja doravante toda uma cólera despeitada e vindicativa. Algumas tiradas mais eloquentes:
  • «Cristo não tem inimigos mais venenosos, mais encarniçados, mais amargos que os judeus.»(...)
  • «Quando Judas se enforcou, os judeus talvez tenham enviado os seus servos, com pratos de prata e jarros de ouro, para recolher a sua urina com os outros tesouros, e em seguida comeram e beberam essa merda, e desse modo adquiriram olhos tão penetrantes que descobrem nas escrituras glosas que ali não encontraram nem Mateus, nem o próprio Isaísas (...)»
  • «Quando Deus e os anjos ouvem peidar um judeu, quantas gargalhadas e quantas cabriolas!(...)»
  • «são usurários, parasitas, estrangeiros que nada deveriam possuir (...), mas que se tornaram nossos patrões no nosso próprio país (...)»
  • «Observai tudo o que os judeus sofreram desde cerca de mil e quinhentos anos, e bem pior lhes acontecerá no inferno (...)»
  • «filhos do diabo (...) feiticeiros (...)»
  • «Seria preciso, para fazer desaparecer essa doutrina de blasfémia, atear fogo em todas as suas sinagogas e, se delas restasse alguma coisa após o incêndio, recobri-la de areia e de lama a fim de que não se pudesse mais ver a menor telha e a menor pedra de seus templos (...). Que se proíbam os judeus entre nós e no nosso solo, sob pena de morte, de louvar a Deus, de orar, de ensinar, de cantar. »

Será que Lutero antecipa Goebbels? Então mas não eram a Igreja Católica (a ICAR, dos ciber-imbecis) e a sua diligente Inquisição os maus exclusivos da fita?
Encantado, Hitler, aquando do seu não menos diligente reinado, colocou em circulação milhões de exemplares dos tratados Luteranos, quer o "Contra Judeus e suas Mentiras", quer o "Shem Hamephoras". Serviam de aperitivo ao "Mein Kampf", possivelmente.
Mas nem no recato das "assembleias de Deus" estaremos em segurança?... Os protestantes, vejam lá bem, tão liberais, tão progressistas, tão abertos à indústria e à iniciativa individual... Quem diria.
Vamos chamar-lhe como? - Sacronazismo?...

Momento de descontracção

Não resisti. Acabo de pilhar esta peça, das mais hilariantes que tenho lido em qualquer caixa de comentários ever... Não percam. É de um tipo se escangalhar!

«Caro Timshel

Creio que compreenderás muito bem o seguinte comunicado:

It has been brought to our attention by several officials visiting our corporate Headquarters that offensive language is commonly used by our Portuguese-speaking staff. Such behavior, in addition to violating our Policy, is highly unprofessional and offensive to both visitors and colleagues. In order to avoid such situations please note that all Staff is kindly requested to IMMEDIATELY adhere to the following rules:

1) Words like merda, caralho, foda-se, porra or puta que o pariu and other such expressions will not be used for emphasis, no matter how heated the discussion.
2) You will not say cagada when someone makes a mistake, or granda merda if you see somebody either being reprimanded or making a mistake, or que grande cagada when a major mistake has been made. All forms derivate from the verb cagar are inappropriate in our environment.
3) No project manager, section head, or executive, under no circumstances, will be referred to as filho da puta, cabrão, ó grande come merda, or vaca gorda da puta que a pariu.
4) Lack of determination will not be referred to as falta de colhões or coisa de maricas and neither will persons who lack initiative as picha mole, corno, or mariconso.
5) Unusual or creative ideas from your superiors are not to be referred to as punheta mental.
6) Do not say esse cabrão enche a porra do juízo if a person is persistent. When a task is heavy to achieve remember that you must not say é uma foda. In a similar way, do not use esse gajo está fodido if colleague is going through a difficult situation. Furthermore, you must not say que putedo when matters become complicated.
7) When asking someone to leave you alone, you must not say vai à merda. Do not ever substitute "May help you" with que porra é que tu queres?? When things get tough, an acceptable statement such as "we are going through a difficult time" should be used, rather than isto está tudo fodido.
8) No salary increase shall ever be referred to as aumento dum cabrão.
9) Last but not least after reading this memo please do not say mete-o no cu. Just keep it clean and dispose of it properly. We hope you will keep these directions in mind.
Thank you.

"There is nothing more frightful than ignorance in action." »

- Johann von Goethe, na caixa de comentários do Timshel

O Bode da Questão


Tornando à vaca fria, ou melhor, ao bode, já que tanto insistem...
«Tanto que Brízida Vaz se embarcou, veo um Judeu, com um bode às costas; e, chegando ao batel dos danados, diz:
JUDEU
Que vai cá? Hou marinheiro!
DIABO
Oh! que má-hora vieste!...
JUDEU
Cuj'é esta barca que preste?
DIABO
Esta barca é do barqueiro.
JUDEU
Passai-me por meu dinheiro.
DIABO
E o bode há cá de vir?
JUDEU
Pois também o bode há-de vir.
DIABO
Que escusado passageiro!
JUDEU
Sem bode, como irei lá?
DIABO
Nem eu nom passo cabrões.
JUDEU
Eis aqui quatro tostões
e mais se vos pagará.
Por vida do Semifará
que me passeis o cabrão!
Querês mais outro tostão?
DIABO
Nem tu nom hás-de vir cá.
JUDEU
Porque nom irá o judeu
onde vai Brísida Vaz?
Ao senhor meirinho apraz?
Senhor meirinho, irei eu?
DIABO
E o fidalgo, quem lhe deu...
JUDEU
O mando, dizês, do batel?
Corregedor, coronel,
castigai este sandeu!
Azará, pedra miúda,
lodo, chanto, fogo, lenha,
caganeira que te venha!
Má corrença que te acuda!
Par el Deu, que te sacuda
coa beca nos focinhos!
Fazes burla dos meirinhos?
Dize, filho da cornuda!
PARVO
Furtaste a chiba cabrão?
Parecês-me vós a mim
gafanhoto d'Almeirim
chacinado em um seirão.
DIABO
Judeu, lá te passarão,
porque vão mais despejados.
PARVO
E ele mijou nos finados
n'ergueja de São Gião!
E comia a carne da panela
no dia de Nosso Senhor!
E aperta o salvador,
e mija na caravela!
DIABO
Sus, sus! Demos à vela!
Vós, Judeu, irês à toa,
que sois mui ruim pessoa.
Levai o cabrão na trela! »

- Gil Vicente, "Auto da Barca do Inferno"

Uma pequena nota: ao desafortunado judeu, nem o Diabo o quer. Para espanto da comarca, snoba dele. Por fim, numa concessão que, mais do que o imperativo profissional, traduz o nível da repugnância que tal criatura suscita à moral da época, lá condescende em levá-lo "à toa", quer dizer, fora da barca, a reboque duma corda. Tal qual o judeu levará o cabrão. O paralelismo, de resto, é deveras óbvio: o judeu está para o batel como o cabrão está para o judeu.
Convenhamos que este meu curso rápido de anti-semitismo até tem autores interessantes. Convenhamos, igualmente, que estas obras deviam ser proscritas do mercado.Com Gil Vicente, os sinais não mentem, abeiramo-nos de um "paleontonazismo" inquietante. Só de imaginar as crianças que lêem estas blasfémias e heresias nas escolas!...Que germe hediondo não se instalará nelas...

Não deixa de soar a uma certa mofa aquela expressão "civilização judaico-cristã".

terça-feira, abril 04, 2006

The great Toinos Chainsaw Massacre - A Saga continua!

«Respeitamos mais os mortos que os vivos. Cumpria respeitar uns e outros. Bem fazem as nações que chamamos civilizadas em não meter no espeto os inimigos vencidos. Porque se fosse permitido comer os vizinhos, começariam a devorar-se entre si os próprios compatriotas, o que seria grande desdouro para as virtudes sociais. Mas as nações que hoje são civilizadas não o foram sempre. Todas elas foram muito tempo selvagens. E com o sem número de revoluções de que tem sido palco o mundo, o gênero humano foi ora mais ora menos numeroso. Sucedeu com os homens o que hoje sucede com os elefantes, leões, tigres, cujas espécies minoraram consideravelmente. Quando uma região estava ainda escassamente povoada de seres humanos e as artes eram rudimentares, os homens dedicavam-se à caça. O hábito de se alimentarem do que matavam facilmente levou-os a tratar os inimigos como tratavam os cervos e javalis. A superstição fez imolar vítimas humanas. A necessidade levou a que se comessem.
Qual o crime maior: reunir-se religiosamente para cravar em honra da Divindade uma faca no coração de uma menina enfitada, ou comer um bandido morto em legítima defesa?
No entanto há muito mais exemplos de meninas e meninos sacrificados que de meninas e meninos comidos. Quase todas as nações conhecidas sacrificaram crianças. Os judeus imolavam-nas. Era o que se chamava condenar ao anátema e constituía um verdadeiro sacrifício. Ordena-se no capítulo 27 do Levítico não se pouparem as almas viventes prometidas, porém em ponto algum se prescreve que sejam comidas. Isto era outro caso: tratava-se exclusivamente de uma ameaça. Como vimos, disse Moisés aos judeus que caso não observassem as cerimónias, não só teriam sarna, como as mães comeriam os próprios filhos. Positivamente, no tempo de Ezequiel os judeus deviam comer carne humana, pois diz esse profeta no capítulo 39 que Deus os faria comer não apenas os cavalos dos seus inimigos, mas ainda os cavaleiros e os outros guerreiros. De fato, por que não teriam os judeus sido antropófagos? Seria a última coisa a faltar ao povo de Deus para ser a mais abominável nação da terra.»

- Voltaire, "Dicionário Filosófico"

O arauto das luzes da Razão, afinal, concorda com os monstros das trevas. Mais um anti-semita desarvorado, logo um proto-nazi, se bem que, neste caso, resplandecente.
Mas estão à espera de quê, para começar a queimar os livros?...

Os Alexandres ladram e o Dragão posta.