domingo, março 13, 2011

Sinais do Tempo - I




Não há muito que saber sobre os portugueses hodiernos. Funcionam por atracção numérica, ou dito em termos mais eruditos, por oclocentripetia. Nos restaurantes, como nos blogues ou nas praças da revolução. Em vendo gente, juntam-se. Aderem instintivamente. A multidão congrega e aglutina. Participar é também uma forma de mirar, e ambas, em sincronia (e sinfonia) subtil, entretecem toda a excelência do seu estar. Desde o berço -qual!, desde as bolsas seminais paternas - fruem dessa quase segunda natureza, desse atavismo irresistível. Expoente categórico disso mesmo, à escala presente, é aquilo que de mais forte e sincero nutrem nas suas almas: a simpatia futebolística. Ao Benfica, por exemplo, é irrelevante a conquista de qualquer troféu: basta-se com a sua turba inaudita. O que verdadeiramente nele atrai não é tanto uma qualquer virtude desportiva, mas sobretudo o pertencer à maior horda - o "Sermos muitos", o "sermos mais", "o sermos mais que todos"... Esta adesão espontânea e, de preferência, ululante e festiva ao número confunde-se já com tradição. Até porque nestes tempos mais recentes, preenche-a e calafeta-a quase por completo. Mesmo os resquícios de sagrado é na teologia da bola que se anicham e persistem. É a única "religião" sincera que os pais teimam ainda em incutir aos filhos.
E assim chegamos à manifestação de ontem. Não deixa de ser natural que os académicos, os politiqueiros profissionais e os opinadeiros dos mais variados quadrantes da instalação desdenhem das virtudes do evento. Por nefelibatismo crónico, sobranceria bacoca, zelotípia alarve ou mera e lustrosa pentelhiquice, é assim: regra geral, só alcançam até onde a pança e respectivo farol umbilical deixam. Eu próprio não fui nem sou particular entusiasta do empreendimento: qualquer coisa que junte "laico" e "pacífico" no mesmo slogan deixa-me logo de pé atrás. Mas algo que faço por cultivar é o preceito de não permitir que aquilo que eu penso duma coisa contamine irremediavelmente aquilo que essa coisa, de facto, é. Dito mais simplesmente: o preconceito é lixado. Mas por isso mesmo não devemos deixar que eclipse e obnubile, nem o objecto, nem a tese. Até pensadores de vão de escada como Descartes nos alertaram para isso. Já que pensadores a sério, como Aristóteles, souberam ser mais eloquentes - "sou amigo de Platão, mas amo mais a verdade".
Pois bem, a manifestação de ontem não tinha que dizer nada de especial: só tinha que realizar-se. A sua realidade era o seu número. Tão simples quanto isso. A mensagem era essa. O facto de não terem emergido surfistas políticos no local, mais que aqueles cançonetistas folclóricos, só abona do acontecimento. Para efeitos práticos, valeu mais aquela manifestação do que trezentos mil blá-blá-blás esclarecidos e altamente perfunctórios de não sei quantos iluminados internéticos, onde naturalmente me incluo. Que efeitos práticos são esses? Tanto quanto práticos, são necessários e, em certa medida, fatais. Mais que desgoverno, o governo tornou-se hostil e grosseiramente inimigo da quase totalidade da população que é suposto cuidar. Mais até que liquidatário, tornou-se revolucionário: dum dia pró outro, e depois de viciamentos prolongados em determinados costumes que ele próprio incentivou, mediou e gratificou, pretende sujeitar as suas vítimas a uma inversão abrupta e instantânea de todos os seus comportamentos. Como se isso fosse possível e exequível. Como se depois de lançar uma locomotiva a todo o vapor por uma ribanceira, fosse possível resolver a asneira descomunal através duma manobra simples: engrenar a marcha atrás e punir os passageiros, através de multas, coimas e taxas. Só se for na Banda Desenhada, porque mesmo na propaganda ainda não se consegue chegar a tanto. Na verdade, a anedota trágica resume-se a isto: primeiro, estimularam as massas - "acreditem na banca, corram ao crédito e sereis gratificados!"; depois -ou seja, agora - num funambulismo radical, tão manhoso quanto selvagem, é subitamente o contrário: "porque acreditastes em nós e na banca, por causa do crédito, sereis punidos!"
Não é preciso ser muito esperto para saber que nem mesmo as massas são asssim tão burras e resignadas. É evidente que isto vai resultar em tumulto. E o melhor é que não é apenas evidente: é imperioso, é necessario. E quando a engrenagem da necessidade entra em acção, não há propaganda nem verborreia que valham ou resistam. A maior ilusão da irresponsabilidade e da incompetência é julgar que a impunidade é eterna e que a consequência meteu férias. Pois aí a tendes a assomar à porta! O que esta manifestação podia ou não conseguir era significar mais que a sua mera ocorrência. Pela dinâmica típica destes portugueses concretos que ora existem, estou em crer que sim. Converteu-se num anúncio, num presságio sério do que aí vem. Na geostratégia fala-se muito no efeito de dominó; nas erupções de protesto cá do burgo julgo que acabaremos, um dia destes, a falar do efeito bola de neve. Ou me engano muito (o que é raro) ou ontem principiou a avalanche. Deus a abençoe e proteja!...

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