sexta-feira, novembro 30, 2012

Fórum Descolhonização - 5. Autópsia duma Golpada



«Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril.

Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime.

Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o exército português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional, e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa.

Todavia, o acordo não se realizou, e retirada não houve, mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir. Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas. Uma foi que o PCP, infiltrado no exército, não estava interessado num acordo nem numa retirada em ordem, mas num colapso imediato que fizesse cair esta parte da África na zona soviética. O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar. Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu. Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários». E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do exército para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige em grau elevadíssimo o moral da tropa. Neste caso a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos, e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional. Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas dos que desorganizaram conscientemente a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que nas circunstâncias do momento eram puramente criminosas.

Isto quanto à descolonização, que na realidade não houve. O outro problema era da liquidação do regime deposto. Os políticos aceitaram e aplaudiram a insurreição dos capitães, que vinha derrubar um governo, que segundo eles, era um pântano de corrupção e que se mantinha graças ao terror policial: impunha-se, portanto, fazer o seu julgamento, determinar as responsabilidades, discriminar entre o são e o podre, para que a nação pudesse começar uma vida nova. Julgamento dentro das normas justas, segundo um critério rigoroso e valores definidos.

Quanto aos escândalos da corrupção, de que tanto se falava, o julgamento simplesmente não foi feito. O povo português ficou sem saber se as acusações que se faziam nos comícios e nos jornais correspondiam a factos ou eram simplesmente atoardas. O princípio da corrupção não foi responsavelmente denunciado, nem na consciência pública se instituiu o seu repúdio. Não admira por isso que alguns homens políticos se sentissem encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune tivesse tido a consagração oficial. Em qualquer caso já hoje não é possível fazer a condenação dos escândalos do antigo regime, porque outras talvez piores os vieram desculpar.

Quanto ao terror policial, estabeleceu-se uma confusão total. Durante longos meses, esperou-se uma lei que permitisse levar a tribunal a PIDE-DGS. Ela chegou, enfim, quando uma parte dos eventuais acusados tinha desaparecido e estabelecia um número surpreendentemente longo de atenuantes, que se aplicavam praticamente a todos os casos. A maior parte dos julgados saiu em liberdade. O público não chegou a saber, claramente; as responsabilidades que cabiam a cada um. Nem os acusadores ficaram livres da suspeita de conluio com os acusados, antes e depois do 25 de Abril.

Havia, também, um malefício imputado ao antigo regímen, que era o dos crimes de guerra, cometidos nas operações militares do Ultramar. Sobre isto lançou-se um véu de esquecimento. As Forças Armadas Portuguesas foram alvo de suspeitas que ninguém quis esclarecer e que, por isso, se transformaram em pensamentos recalcados. Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regímen, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os homens não substituíram os mesmos; a um regímen onopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente. Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: «a longa noite fascista». Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral. A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar. O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção. E com este começo tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob capa de democratização do ensino; vieram «saneamentos» oportunistas e iníquos, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão, pelo Governo e pelos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio honesto de viver. Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco.

Ao contrário das esperanças de alguns, não se começou vida nova, mas rasgou-se um véu que encubria uma realidade insuportável. Para começar, escreveu-se na nossa história uma página ignominiosa de cobardia e irresponsabilidade, página que, se não for resgatada, anula, por si só todo o heroísmo e altura moral que possa ter havido noutros momentos da nossa história e que nos classifica como um bando de rufias indignos do nome de nação. Está escrita e não pode ser arrancada do livro. É preciso lê-la com lágrimas de raiva e tirar dela as conclusões, por mais que nos custe. Começa por aí o nosso resgate. Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou. As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de nação independente.»

- António José Saraiva

Nós não temos resgate económico que nos salve enquanto não nos resgatarmos moralmente. O resto nem sequer é conversa: é grunhido.


13 comentários:

Vivendi disse...

Nós não temos resgate económico que nos salve enquanto não nos resgatarmos moralmente. O resto nem sequer é conversa: é grunhido.

E quem não perceber isto está a condenar Portugal a ser um não país.

Duarte Meira disse...


Dragão:

Uma boa lembrança e justíssima homenagem a um grande patriota e homem da alta cultura - António José Saraiva - que, depois de 74, soube recuperar a boa razão pessoal e nacional, e foi por isso vilipendiado e marginalizado.

O processo documental do trágico Abandono de África e de Timor está feito - em termos gerais de problemática histórica, e especiais por província ultramarina e agentes responsáveis - nas 750 páginas de O Livro Negro da Descolonização, do jornalista Luiz Aguiar, publicado em 1977.

zazie disse...

Grande texto do A. J. Saraiva.

Anónimo disse...

"Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou."


Podem as forças armadas ambicionar respeito público enquanto não demonstrarem que não são aquilo que o 25 de Abril revelou?

Anónimo disse...

Grande prosa sem duvida.

Anónimo disse...

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lusitânea disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lusitânea disse...

A esmagadora maioria dos executantes do 25 agiram por camaradagem para libertar a rapaziada das Caldas.E todos contra daquela coisa inovadora das "novas oportunidades" que quiseram implementar.Por formação e ambiente não agiram politicamente motivados.Nunca vi alguém que denunciasse a militância em partido no "antes".Embora alguns marinheiros mais tarde aparecerem muito chegados ao PCP ou cumprindo as suas ordens como o almirante vermelho e o gajo da ocupação dos arquivos da PIDE.Os executantes tiveram a preocupação de garantir que a partir daí seria todo o zé povinho a ter que dizer para onde queria ir.Cá dentro e lá fora.Como vêm pelas promessas eleitorais aí também a coisa durou uma semana até uma famosa reunião na Manutenção Militar para dar a "cobertura" ao ministro dos negócios estrangeiros.Que veio a fazer o que fez e se não concordou nunca se queixou.Nem ele nem ninguém mais.
O Exército nem uma centena de subalternos tinha para enquadrar a guerra em 3 frentes.Portanto faziam "chouriços" milicianos para a "quadricula" e asseguravam preparação mais cuidada para as forças especiais que resolviam os problemas mais bicudos.
Agora vem o dano colateral do ensino do marxismo nas universidades.Nas seitas que cada "sol na terra" lá ia plantando.Lá fora(vários actos de insubordinação e figuras vergonhosas), mas principalmente cá dentro com esses grupelhos a ordens de potência estrangeira a impedir os "embarques" de substituição de tropas.O que pelos vistos não preocupou nenhum dos partidos surgidos...
Ter sido diferente a partir daqui seria milagre.Principalmente quando mandam desarmar os brancos no Ultramar.Isso sim que deveria ser objecto de julgamento e apuramento de responsabilidades.Isso e a ponte aérea do não retorno...
O 25 não se fez para legalizar o PCP, nem o PS de antigos comunistas.Que aliás exigiram logo que os primeiros fossem contemplados no festim...e até metidos no governo!
Claro que depois de e rapidamente terem promovido o saneamento das FA`s o destino estava traçado.Foi o início do "fascismo nunca mais"
Mas que dizer agora da nossa própria colonização?País sem fronteiras para todo o mundo que logo tem direitos divinos por nossa conta?Termos já mais africanos do que brancos havia em África?Sem serem necessários para nada?Quem são os responsáveis?Que contrapartidas arranjaram?Quanto é que nos custa ainda o ex-império?Cá dentro e lá fora?
Isso continua a ser obra dos nossos internacionalistas dos vários "partidos" que julgavam que os euros vinham de Marte e sem parar...
Portanto se estamos na merda é devido à merda que nos tem desgovernado e que para mim só será resolvida com outra ditadura dos melhores que coloque os interesses dos Portugueses acima do mundo e dos corruptores económicos e ideológicos.Trabalhando...

lusitânea disse...

Houve o 25 de Novembro.Quem é que o fez desaparecer na secretaria?Quem é que tem medo de 20%?Mas afinal quem é quem na dita "direita"?Tirando meia dúzia de amigos dos corruptores é tudo igual a merda meus.Quer-se dizer tanto podiam ser militantes do PCP,PS ou PSD...aliás com migrações deveras curiosas comprovam...
Votem neles votem que ainda um dia serão expedidos para África como os chineses...a fazerem trabalho escravo numa de "todos iguais,todos diferentes"...

Anónimo disse...

Dicotmia direita-esquerda depois de 74 é só para entreter o povo, enquanto os gajos no poleiro roubam à vontade.

Anónimo disse...

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zazie disse...

Quem é este caralho que anda para aqui a receitar genéricos?

ehehehhe

Cada anormalidade à solta que faz favor.

Anónimo disse...

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